As canetas para emagrecer, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, viraram assunto em todo lugar. Junto com elas, apareceu uma expressão nova nos consultórios e nas redes: os “dentes do Ozempic”. Mas, afinal, qual é a relação entre Ozempic e saúde bucal? O remédio estraga os dentes? Neste artigo, explicamos o que se sabe até agora e o que você pode fazer para proteger o seu sorriso durante o tratamento.

O que são as canetas emagrecedoras?
Ozempic e Wegovy (semaglutida) e Mounjaro (tirzepatida) são medicamentos injetáveis que imitam hormônios do intestino ligados à saciedade, conhecidos como agonistas de GLP-1. Eles reduzem o apetite, deixam a digestão mais lenta e ajudam no controle da glicose. São usados no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, sempre com prescrição e acompanhamento médico.
O ponto importante: o medicamento em si não “dissolve” os dentes. Os problemas bucais relatados estão ligados principalmente aos efeitos colaterais e às mudanças de hábito que podem vir com o tratamento. Também vale saber que a ciência ainda está estudando o tema: uma análise publicada em 2026 no Journal of Dental Research aponta que ainda não existem estudos prospectivos que tenham medido desfechos dentários em pacientes que usam essas canetas [1].
“Dentes do Ozempic”: 6 efeitos das canetas emagrecedoras na saúde bucal
“Dentes do Ozempic” não é um diagnóstico oficial. É um apelido popular para um conjunto de alterações que dentistas vêm observando em alguns pacientes que usam esses medicamentos. As principais são:
1. Boca seca (xerostomia)
A boca seca é o efeito bucal mais relatado. Uma análise de mais de 360 mil notificações de efeitos adversos à FDA (agência americana) encontrou um sinal específico de boca seca para a semaglutida [2]. Parte do problema vem de beber menos água e comer menos, já que a fome e a sede diminuem; pesquisadores também investigam se o remédio age diretamente nas glândulas salivares [3]. Esses dados de notificação mostram associação, não comprovam causa. Na prática, com menos saliva a boca perde sua principal defesa natural: é a saliva que neutraliza ácidos, limpa restos de alimentos e ajuda a remineralizar o esmalte.
2. Erosão do esmalte por náusea e refluxo
Náusea, vômitos e refluxo são os efeitos colaterais mais comuns dessas medicações: a náusea aparece em 15% a 50% dos pacientes e o vômito em 5% a 24%, segundo a literatura [1], principalmente no início do tratamento e nos aumentos de dose. O ácido do estômago, quando chega à boca com frequência, desgasta o esmalte. Os pesquisadores consideram esse risco de erosão plausível, mas ele ainda não foi medido em estudos [1]. Com o tempo, os dentes podem ficar mais sensíveis, amarelados, translúcidos nas pontas ou com aspecto “gasto”.
3. Possível aumento de cárie
Pouca saliva + ácido + hábitos como beliscar pequenas porções ao longo do dia ou usar balas e bebidas para aliviar o enjoo formam um cenário favorável para a cárie. Revisões citam aumento de cárie entre os efeitos relatados, mas o risco ainda não foi quantificado em pesquisas clínicas [1][4].
4. Mau hálito
A boca seca favorece o acúmulo de bactérias na língua e entre os dentes, e o mau hálito aparece entre as manifestações descritas em revisões sobre a semaglutida [4][5]. Comer muito pouco também pode alterar o hálito.
5. Alteração do paladar
Alguns pacientes relatam gosto estranho na boca ou mudança no paladar (disgeusia). Esse efeito também aparece com sinal significativo nas notificações à FDA, muitas vezes junto com boca seca e vômitos [2]. Se o paladar mudar, comente com seu médico e com seu dentista.
6. Mudanças no rosto e na prótese
A perda de peso rápida também reduz a gordura do rosto, o que algumas pessoas chamam de “rosto de Ozempic”. Quem usa dentadura ou prótese removível pode perceber que ela ficou folgada, já que o rosto e os tecidos da boca mudam junto com o corpo (ainda não há estudos específicos sobre isso, mas é algo que observamos na rotina do consultório). Nesses casos, um ajuste ou reembasamento costuma resolver. Para o aspecto do rosto, a harmonização orofacial pode ser uma opção, sempre após avaliação.
E a gengiva? Uma boa notícia em estudo
Aqui a ciência traz um dado interessante. Estudos em laboratório e em animais sugerem que os agonistas de GLP-1 podem ter efeito anti-inflamatório e ajudar a proteger o osso ao redor dos dentes, o que despertou interesse no tratamento da periodontite, especialmente em pessoas com diabetes [6][7]. Porém, ainda não há ensaios clínicos em humanos que comprovem esse benefício [6]. Ou seja: o remédio não substitui o tratamento da gengiva inflamada, e a boca seca continua sendo um motivo para caprichar na higiene.
Quem usa Ozempic precisa parar o remédio por causa dos dentes?
Não. Os benefícios desses medicamentos para quem tem indicação são importantes, e qualquer mudança no tratamento deve ser decidida apenas com o médico que o prescreveu. Quando falamos de Ozempic e saúde bucal, o objetivo é outro: cuidar da boca para que o tratamento não deixe sequelas no seu sorriso.
Ozempic e saúde bucal: como proteger os dentes durante o tratamento
- Beba água ao longo do dia, mesmo sem sede. Uma garrafinha por perto ajuda a lembrar.
- Depois de vomitar, enxágue a boca com água. Antes se recomendava esperar 30 minutos para escovar, mas uma revisão de 2024 concluiu que escovar com creme dental com flúor logo após o contato com ácido não aumenta o desgaste do esmalte [10]. O importante é usar escova macia e não fazer força.
- Use creme dental com flúor e, se o dentista indicar, enxaguante com flúor ou produtos para sensibilidade.
- Masque chiclete sem açúcar para estimular a saliva.
- Evite balas, pastilhas e refrigerantes para aliviar o enjoo. Prefira opções sem açúcar.
- Capriche na higiene: escovação e fio dental todos os dias, incluindo a língua.
- Faça consultas preventivas com mais frequência enquanto estiver em tratamento, para identificar desgaste e cárie no começo.
Vai fazer um procedimento odontológico? Avise que usa a caneta
Os agonistas de GLP-1 deixam o esvaziamento do estômago mais lento. Com o estômago ainda com conteúdo, aumenta o risco de vômito e aspiração durante sedação ou anestesia geral, o que é relevante em algumas cirurgias de implante dentário [8][9]. Uma diretriz publicada em 2024 por sociedades médicas recomenda avaliar o risco de cada paciente e decidir em conjunto, entre quem faz a sedação, o médico que prescreveu e o paciente, se o remédio deve ou não ser pausado [8]. Por isso, informe sempre ao dentista que usa Ozempic, Wegovy, Mounjaro ou similares, qual a dose e o dia da aplicação.
Quando procurar o dentista
- Dentes mais sensíveis ao frio ou ao doce
- Dentes que parecem mais amarelados, gastos ou transparentes nas pontas
- Boca seca constante
- Mau hálito que não melhora com a higiene
- Gengiva sangrando
- Dentadura ou prótese folgada
Cuide do seu sorriso com a Dentista VIP
Na Dentista VIP, na Vila Mariana, em São Paulo, acompanhamos pacientes em tratamento com canetas emagrecedoras com prevenção, tratamento do desgaste do esmalte, ajuste de próteses e reabilitação oral. Se você usa Ozempic ou Mounjaro e percebeu alguma mudança na boca, agende uma avaliação: cuidar de Ozempic e saúde bucal juntos evita problemas maiores no futuro.
Este conteúdo é informativo e não substitui a consulta com seu dentista ou médico. Não interrompa nem altere o uso de medicamentos sem orientação médica.
Leia também
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- Boca seca com Ozempic: 8 dicas para aliviar
- Como proteger o esmalte dos dentes do vômito e do refluxo
- Dentadura folgada depois de emagrecer
- Rosto de Ozempic: o que é e como tratar
- Ozempic e periodontite: a caneta ajuda a gengiva?
Referências científicas
- Werner N, et al. GLP-1 Receptor Agonists in Dentistry: Promise, Pitfalls, and Evidence Gaps. J Dent Res, 2026. doi.org/10.1177/00220345261488338
- Massarotto FC, et al. Oral Health-Related Adverse Events of GLP-1 Receptor Agonists. JDR Clin Trans Res, 2026. doi.org/10.1177/23800844261491724
- Barać M, Roganović J. GLP-1 Receptor Signaling and Oral Dysfunction: mechanistic basis of semaglutide-related oral adverse effects. Biology, 2025. doi.org/10.3390/biology14121650
- Al-Zawawi AS. Oral Adverse Effects of Semaglutide Therapy: A Narrative Review. J Int Soc Prev Community Dent, 2026. doi.org/10.4103/jispcd.jispcd_5_26
- Kofman K, Ouanounou A. Oral Health Considerations and Dental Management Guidelines for Semaglutide Medications. Can J Diabetes, 2026. doi.org/10.1016/j.jcjd.2026.03.008
- Polymeri A, et al. GLP-1 receptor agonists: Bridging diabetes, obesity, and periodontitis – a scoping review. J Periodontol, 2026. doi.org/10.1002/jper.70092
- Jeong N, et al. Periodontitis and GLP-1 pathways: a scoping review. Front Clin Diabetes Healthc, 2025. doi.org/10.3389/fcdhc.2025.1679511
- McKenzie C, et al. Implications of GLP-1 Agonists on Office-Based Sedation and General Anesthesia for Dentistry. Anesth Prog, 2025. doi.org/10.2344/anpr-72-1-ANPR_Agonists
- Yamamoto T, Kishimoto N. GLP-1 receptor agonists and dental sedation: a potential blind spot in preoperative assessment. J Dent Anesth Pain Med, 2026. doi.org/10.17245/jdapm.2026.26.146
- Fernández CE, et al. Should We Wait to Brush Our Teeth? A Scoping Review Regarding Dental Caries and Erosive Tooth Wear. Caries Res, 2024. doi.org/10.1159/000538862



